sábado, 29 de junho de 2013

Personagem 



Invento palavra 
vento arrebata a rima 
urge escrever sem pontuar
a dor
a alegria
o sentir o mundo
inverossímil tratado geral de poesia
instante original de escrever sem retoques
Minha palavra revolve o dia
invento janelas 
saio de bengala a pisar sobre retalhos de poemas 
recortando fotografias
punhal d'água a saciar minha nudez
desmontando as engrenagens do tempo
cumplicidade na poesia
livros tatuados na pele
no limite do horizonte  sussurros urbanos
Invento cidades
esqueleto e testamento 
sou corpo e consciência
peso e medida
arranjo de cromossomos 
a caminhar mutante
sou com o planeta... 

Teorema




...arco lunar
brilho argênteo 
invadindo memória das horas
reverbera na carne 
sede sem água
sem tatuagem
ritual de lembranças pretéritas 
colorindo a tradução da lucidez

Arco lunar
órbita milenar
geometria dos deuses sem ambrosia
embrião perpétuo e ruídos urbanos 
movimento de giz e sonho
alfa e ômega
o sem limites do amar 
Uivo de cão vadio 
palavra sobrepondo palavra
zodíaco em pane....  

segunda-feira, 10 de junho de 2013

VELUDO AZUL
Naquele feriado prolongado não acordou com azia, sentia-se leve, não acordou nenhuma vez no meio da madrugada, a dor na coluna desaparecera, estranhou seu próprio bem estar. O verão fervia, os raios de sol invadem as frestas da janela o quarto, seu corpo, seu rosto. Levanta-se com agradável leveza, sem resmungar, sem mal dizer, sem lembrar do vencimento das contas, estava feliz consigo mesmo.
O rádio amanhece ligado, seu companheiro das noites de insônia, feriado prolongado, as estradas para o litoral já estavam congestionadas, a cidade ficava deserta, o stress coletivo estava voltado para as filas no pedágio, a Imigrantes congestionada era noticiário na TV.
Sente-se leve, então sorri. Suzana estava na cozinha passando café, o melhor perfume de uma casa, café passado na hora, lembra a infância. Suzana serena, lhe oferece a bebida quente, já passava dos quarenta, mas continuava com os contornos apetitosos. A rotina dos anos, foram atrofiando seu bom humor, as rugas do tempo estavam invadindo sua alma, deixou de usar batom, passar sombra nos olhos, não sentia-se atraente, foi mutilando seus desejos, em nome da rotina, na verdade, um estímulo, poderia reverter sua apatia diária. Hugo admirado consigo mesmo gostaria se fosse possível congelar esses momentos e vive-los repetidamente, apenas essa fração de bem estar, essa paz que surgiu envolvendo seu corpo. Afinal estava vazio de amarguras, pensamentos mesquinhos, maldosos, ou de trágicos acontecimentos, isso seria a tal felicidade ? Se não é, poderia, como voltar o tempo sempre nesses instantes plenos de satisfação. A luz solar invade a sala, reflexos quebrados iluminam o corredor, a cozinha, a casa fica renovada de um bem estar que há muito estava esquecido no seu dia-a-dia cinzento, cheio de azedumes.
Começou a olhar para Suzana com desejo viril de adolescência, Hugo aproxima-se de Suzana e a abraça forte, beija seu pescoço, ela feliz com a surpresa gosta e oferece seus lábios molhados e carnudos. Feriado prolongado bem vindo ! maravilhosamente afrodisíaco pensou Suzana, Hugo despe sua camisola, beija seus seios excitados, seu ventre, de mãos entrelaçadas, as bocas procuram-se com frenesi, logo depois o sofá ensolarado abriga os corpos sedentos, os sussurros obscenos..
Naquele dia, Suzana e Hugo amaram-se com fúria, os ponteiros do relógio perderam sua utilidade, o dia azul em esplendido vigor revitalizou os enamorados, redescobriram-se amantes.
Em silencio e felizes entreolhavam-se. O brilho do olhar de Suzana estava cinematográfico, tornou-se bela, como há muito tempo os olhos de Hugo não via ou deixou de perceber, Hugo sentia-se um imberbe. Nesse estado de felicidade, esqueceram das mazelas cotidianas, vestiram-se e saíram para comemorar a felicidade, foram almoçar numa cantina do Bexiga, depois passear, andar pelas ruas vazias da cidade, tomar chopis no bar Brama, anoitecendo foram para a rua da Consolação assistir no Belas Artes “Veludo Azul”, com Isabella Rosellini, de mãos dadas, como se fossem debutantes do amor.
Aquele feriado prolongado foi inesquecível para Hugo e Suzana, que nem importaram-se com a chuva repentina, a demora do ônibus para voltar para casa...


Elson Alegretti Rodrigues 20/02/2011