Água viva
...cidade sob a chuva
cinza
cinza
são flores encolhidas
água viva.
Córrego
(reflexo negro)
subverte suas margens
avança selvagem
engole casas, ruas
serpente.
Água negra
negra
negra
fúria
cidade chorando seus pecados
noite de mil pés.
Espelho vivo
imagens anônimas
brilha chama neon.
Dentro da casa
alimentar amor solar
lançar-se náufrago
no sonho
no delírio.
Corpo de mulher
sabor chocolate.
Corpo da noite
galopa virgem
sobre corpos acasalados
cidade sob chuva.
Muro escuro
oceano de asas
pela boca a dentro
dentro da confusão
noite noite.
Arquitetura
duma rosa
duma vagina
sede das trepadeiras
sobre seu corpo.
Teu nome escrito num pedaço de poesia
perdido no bolso.
Verde teu corpo
deita cansada trazendo
relâmpagos e metais.
Helena ou Maria
Nair ou Teresa
Rita ou Ana, teu nome perdeu-se na correnteza
cinza
cinza.
A noite passa como trem bélico
guerra
guerreiro
guerrear
pássaro de fogo clareia penumbra
parto do sol.
Cidade sob a chuva
córrego sou eu.
*poema publicado em 1985

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