terça-feira, 17 de dezembro de 2013

DEZEMBRO DE SOL

Minutos que vão sendo colados, compondo imagens na tela da lembrança, silencio quebrado, musica que volta, dormia em alguma gaveta do passado. Música e textura de formas e cores, olho para a varanda plena de luz e vento.
Os passos ainda são lentos com apoio de uma bengala metálica com tripés, artroplastia total de quadril, novo desafio que precisei enfrentar, depois de terríveis dores, agora tudo ficou guardado no arquivo da memória. As dores estão em paginas viradas, a lembrança imóvel da insônia que me acompanhava nas madrugadas no quarto do hospital.
Deixo o sol bater no rosto como o melhor presente para a pele sentir, toda a luminosidade solar, provoca uma grande satisfação, os minutos passam e apenas observo da varanda o limite azul do horizonte com a música na mente, as palavras incompletas por escrever. Sons urbanos, ventania, invadindo a sala, Dezembro trazendo o verão, sempre a motivação de perpetuar o germinar da criação, imagens que vão sendo construídas, sem ordem, lentamente composição de palavras e imagem consolida-se na tela da memória. Lembro como devorava os livros de Clarice Lispector, sempre os lia como poesia, e bebia as palavras com grande avidez despindo todas as arestas que Clarice construía, sutil engenharia fazendo com que sentisse plenitude ao ler. Cenas e sensações, toda a emoção de estar devorando o tempo presente e tecendo o instante seguinte.
O dia vai sendo bordado na pele, agora os pelos da barba crescem brancos, a surpresa do cotidiano sempre nos comove, enfurece, ou e´indiferente redemoinho de sensações que vão querendo levar a lucidez.
Os fatos cotidianos quase todos são banais ou surpreendentes, o mosaico das horas vai dando a tonalidade, embora tudo seja novo a cada instante que passa. Vivemos e envelheço, o mundo e suas percepções, na pele, na língua, na luz que penetra meu olhar. Assim essa aventura de estar vivo consome as células e escrevo essa viagem desconhecida que a cada dia vai consumindo cada homem ou mulher que anda pelas ruas, pelas cidades do planeta. O planeta e´revestido de uma única pele, sem muros, sem escadas, sem fronteiras, apresenta-se sempre nu....
Dezembro quente, despe a cidade de suas cascas, os bairros reverberam ritmo alucinante, sentimentos diversos estão tatuados nas pessoas apressadas que andam de lá para cá, movimento marcial, rápido, sem tempo para esperar, com pressa de ir, expressão de incertezas fica boiando no ar. A cidade consumindo a solidão das pessoas, de maneira sutil como invisível vampiro.
O olhar e o pensamento percorrem as ruas do passado, então revejo ruas, avenidas que fazem parte da minha história, emoções diversas misturam-se com sons e luzes, a tarde abafada dilui qualquer pretensão para revolver meu deserto.
As palavras, as cores, tramitam pelos meus dedos, mas escorregam como agua e apenas sobrevivo inquieto, as luzes da tarde salvam minha identidade ! Quantas frases e versos escreverei ? Quantas vezes a busca por formas ou palavras irá consumir minha lucidez ?
Dezembro de calor e luz ilumina as arestas possíveis, as tantas palavras que surgem no pensamento,as imagens e minha história ! Tocar o impossível, manufaturar com as mãos a alegria de viver, de materializar o amar em imperecível flor ! Sina cicatrizada na alma, e sempre sonhar com os dezembros de sol....
Por um fio, as palavras quase fogem e completam a anarquia do meu sentir o mundo, recortadas imagens, embaralhadas palavras e minha emoção escoando na chuva, chuva pesada cai impiedosa lá fora, busco recobrar equilíbrio, mas a sensação divertida de perder as palavras que gostaria de escrever e escrever outras sem quase pensar reduz a nada a ideia de estar inspirado ou motivado a escrever um tema. Apenas o signo nascendo e viver seu significado de acordo com meu desejo.
Grossa chuva cai anunciado o verão voraz em afogar os pecados da cidade, meu olhar busca alguma cumplicidade com os livros da estante, iniciativa sem sucesso, os livros apenas são objetos possíveis de incendiar a solidão das horas se assim quisermos.
A música da chuva em ritmo único atravessa as horas enquanto a cidade sofre as consequências do excesso de asfalto, cimento, concreto, arquitetura sem harmonia, alagamentos e desolação na periferia. Ritual de indiferença institucional, subproduto da diferença de classes.
Escrevo e salvo-me, busco em cada signo abrir infinitas janelas e percorrer o que não tem tradução, apenas respira comigo. Janelas, portas, barreiras impostas limitando o corpo finito, livre o pensamento vence os limites e atravessa a noite chuvosa, provando as gotas da chuva saciando a fome de existir e criar quantos universos possíveis podendo superar a tridimensionalidade e tocar o improvável o que ainda não podemos supor. Experimentar a ambrosia dos deuses !
Calendário mudando consumindo nossas celulas, a história registra a tragédia humana na superfície do planeta, e assim iremos beijar os lábios do caos. Iremos destruir séculos de evolução ? O compasso da chuva e´constante, a sedução pela cor pela palavra consome o edifício dos anos. A criação consome, desgasta, pouco importa para o leitor, o expectador , o que importa e´a frágil sensação de chegar em algum porto seguro.
Necessidade de traduzir a nós mesmos sem entender o significado e sempre sentir os limites a incomodar a pele. Incomodado, inquieto, desfaço a ferrugem cotidiana e traço um esboço, depois, realizo como linhas definidas e cores emocionadas a construção do momento que vibra na folha de papel, na tela, antes deserta e nua.
A cidade não dorme, sua vida noturna vibra na carne dos solitários, dos amantes que sedentos encontram-se, continente de ébano abrindo sem chaves a nudez de nossas vidas. O pulsar da vida faz-se silente, liberando as ancoras e assim corremos todos os riscos e perigos de fragmentar nossa comoção e rebeldia.
Noite de chuva, cidade chora seus pecados, suas misérias, avenidas, alamedas, ruas, toda a geometria urbana afogada pelos córregos, minha palavra, promovendo tradução incessante do existir sempre expõe meu próprio espanto.
Ciclo independente renasce a todo instante, universo que morre e nasce dentro de mim, extrapola o corpo , a geografia, o sistema solar, somos um corpo único, somos em Deus , somos o anti-Deus, que auto devora-se em ato amoroso e assim a vida perpetua-se sem necessidade de calendário ou registro, por si, metamorfose ambulante da vida, os compêndios filosóficos existem para amarelar, e serem esquecidos . A vida por ela e para o infinito, somos agrupamentos de átomos de carbono em reações químico-físicas a multiplicar a especie na superfície do planeta, animais “organizados “ em sociedade lutando pelo poder até chegar a grandes conflitos bélicos entre nações, somos perigosamente amantes do caos.
As gotas da chuva batem com força na janela, fico lendo as palavras no pensamento antes de digitar, antes de formar imagens junto com a palavra, fecho os olhos, penso em músicas, escolho uma como tema e misturo com o barulho da chuva e tudo fica em harmonia por alguns instantes. A musica me faz sentir mutante, faminto por novas frases, tudo devora tudo e então renasço ao sentir a madrugada chegando com os primeiros fios de luz sobre os edifícios molhados.
A cidade retoma o ritual cotidiano, a pressa matinal, os minutos observados, as principais avenidas congestionadas e o gosto de café ainda domina o paladar. O rádio ligado em outro apartamento me lembra que o planeta esta incluso dentro das minhas entranhas, compartilho a angustia, a solidão, a dor, a alegria, o ódio, a rebeldia, sou identidade numérica, sou todos os livros lidos, os poemas escritos, as cores que pintei, as noticias que escuto, a família, a história que vivi... Releitura constante movendo as emoções, modelando um mosaico instável.
Multiplico o alfabeto e o pensamento faz veloz travessia no passado e assim consigo rever velhas amizades, momentos preciosos compondo minha história. Verbo reluzente que motiva o passo seguinte, insisto em vencer os limites, tenho em mim todas as cores, tenho em mim o amor que multiplica a vida, tendo as sementes do sol no esqueleto.
Compartilho do pó das estrelas, sou com o planeta, raiz e seiva, o delírio alaranjado dos hibiscos provocam grande alegria apesar de ser menor que um grão de areia numa escala cósmica.
Quero o sol queimando musgos da angustia, andar colecionando fotografias do cotidiano e saudar cada dia vivido, incrível aventura da vida renascendo a cada dia independente do nosso querer, das amarguras que precisamos enfrentar e ultrapassar. Quero sol queimando as páginas de dor, as marcas da solidão pichadas nos muros da cidade...
Subversão oculta que sempre caminha ao meu lado, quero o sol na minha face, e dividir o sonho de um país sem o horror da miséria, da corrupção sórdida dos eleitos pelo povo, quero o sol queimando todos os pesadelos, e intensamente viver os dias na cidade.
Olhar a realidade e reconhecer o limite da minha identidade, então recorro aos traços, as palavras, cenários e personagens, mosaico vivo consumindo a existência. No espelho me vejo envelhecer, mas a vital subversão permanece respirando nua, sensual, saciando meus desejos...
Busca que não cessa, o impulso de criar e não entender o porque, criar e sentir-se satisfeito, depois recomeçar tudo novamente, deserto que devora qualquer fio d'água, as horas, os dias, as semanas, o movimento das ruas, da cidade, vida e morte irmanadas tatuando nossas vidas e olhar para dentro de nós e olhar para os olhos do próximo e aprender que somos uma mesma diversidade, ilhados em nós mesmos construímos e destruímos, eros e thanatos, na mesma máscara. Então colorimos a realidade material, nossos corpos em cópula, silenciosa alquimia do existir, estimulados pelos hormônios, a nossa presença material perpetuada na superfície do planeta . Afinal somos proprietários de nossos corpos ?
Ferramenta e posse, corpo e agir, ferramentas desde a pré-história para matar, para comer, sobreviver, criar a civilização, Deus nos joga em labirintos para superar os limites, paredes que nós mesmos erguemos, e Deus nos assiste sem interferir em nossos descaminhos...
Chuva lavando nossa dualidade, palavras perdidas fugindo para os bueiros, então por que recriamos o amor ? Instinto da preservação da espécie ? Ruas que atravessam meu corpo, ruas que deixam fotografias anônimas coladas na pele, comoção por estar vivo sem levar dogmas debaixo do braço.
Dezembro abafado enchendo a sala de comoção, resolvo sair, e esquecer aqueles sentimentos difusos, minha marcha e´ lenta, mas isso perde a importância tudo parece , reviver por que estou reaprendendo a andar, com a ajuda de andador e bengala, depois de meses impossibilitado de levantar e andar. Sensação leve e diferente, a conquista de um passo após o outro. Estranha satisfação, mas real, voltar a andar pela calçada foi como fazer o gol da vitória de uma partida de futebol !
Ficar contemplando a plenitude azul, intenso azul, depois de grossa chuva, satisfação semelhante a ouvir um concerto esfuziante e alegre de Mozart...
Abraço dezembro e quero multiplicar verbo indomável, abraçar os amigos, alimentando a teimosia de viver , ultrapassando minhas limitações, falhas, desencontros, olhar mais uma vez o limite azul e continuar meu caminhar sem escolher direção , com a certeza que devo ir..

12/2010


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