domingo, 15 de dezembro de 2013



Margaridas 


           Do útero da noite nascem palavras neon,  numa disposição marcial. Saltam da máquina de escrever com voracidade para intervir na realidade. Pouco a pouco a carne da noite revela-se sedutora e móvel.
           Meu corpo na casa, mimetismo para todos os sentimentos e disposição para despir o sol escondido nas margaridas do vaso sobre a mesa. Os personagens da casa dormem, adormecidas suas vidas cotidianas enquanto a casa viaja nas tranças do tempo. Porta aberta para os espectros tramitarem as páginas da sua história anterior. Num circulo eles se dispõem e conversam seu idioma, não os compreendo, curiosos, percorrem os cômodos da casa, observam os livros, a televisão desligada, a pequena estátua nua morta.
           A casa continua sua viajem na correnteza do tempo, embarcação errante no oceano de fatos acontecidos, cheiros, sabores. Os dedos percorrem velozes as teclas codificando impressões e vida. Os espectros se cansam e somem na nuvem das horas, enquanto percorro a geografia dos pensamentos.
           O olhar mergulha no álbum das coisas acontecidas buscando velhos endereços expondo toda uma carga emotiva revividos num segundo. Açúcar que retorna aos lábios, cenas de um filme lento exposto ao olhar e verbo pretérito. Ruas de pedra onde trafegam identidades livres, trampolim fotográfico, âncora recolhida, conjugação disparando.
           Reconhecimentos bailando sem música, imagens cruzadas, devorando raízes do momento passado, o segredo dos ancestrais. Carregamos conosco todos os gritos pré-humanos e as sementes da morte. A morte irmã de todas as células do homem que sou, fruto a ser mordido por isso somos uma aventura desconhecida em corpos de carne.
           Viajem que segue em recortes de jornal, sequencia de textos lidos  que jamais retornarão, transpiramos originalidade para criar e não entender as pétalas brancas das margaridas dispostas
geometricamente para compor o que chamamos flor.
            Minhas células continuam sua fome de reprodução, mitocôndrias, mitoses, meioses, galáxias internas que respiram comigo. Somos o pó das estrelas em forma de homens esparramados por continentes, países, cidades, inventores da geografia.
            Na casa, as paredes já não comportam o propósito e linguagem da existência. As paredes trincam e arrebentam desnudando o sol de cada verbo. Nu, procuro minha identidade em espelhos estilhaçados, a casa é o planeta. Tinta e emoção nas pontas dos dedos, o planeta engolira meu cadáver, sêmen  e unhas, restara o mistério e palavras digitadas, a paixão ficara trancada em minhas entranhas.
             Noite em torpor oferecendo os lábios, as mãos buscam ventre macio, as ancas,   beijo perfumado seios, libido sem chaves, suores trocados, coxas entrelaçadas, ritmo e fome dos sexos. Cavalgamos indomável chama, extasiados em orgasmos, corpos que se separam na negritude do quarto, subvertendo a morte, restando no chão da cozinha mancha lunar.
            O amor em fuga, em forma de corpo, começa a correr desatinado pelas ruas, casas escuras, avenidas. Meus olhos procuram segui-lo em vão, a  noite agoniza diante do embrião da alvorada. Rompe alvorada e na ferrugem da cidade vasculho  o corpo-amor antes que a mancha da noite fique impregnada na carne dos homens e nunca mais a casa possa ser reconstruída.
             Corpo-amor entre minhas mãos rompe sua carcaça e assim a alvorada segue seu metabolismo. A casa retorna em seu desenho e verdade originais, lá me esperam os personagens, os espectros, a incandescência da palavra...  
                                                                          1986                                         

Nenhum comentário:

Postar um comentário